Ouça aqui a versão original da música Flor do Cascalho, da nossa trilha sonora que nos foi enviada por Josué Cardoso, filho do poeta, advogado e compositor de Flor do Cascalho, Apolônio Cardoso.
Num determinado momento do filme Pedro, personagem de Wagner que é ator e diretor, faz uma adaptação de “Tristão e Isolda” para o Sertão que será exibida na tv. No filme vemos os ensaios e algumas cenas deste programa.
Resolvi aproveitar a produção, gravar mais umas cenas e montar um programinha de dez minutos com a história corrida desta adaptação um pouco
por diversão, um pouco para usá-la de alguma maneira mais tarde como extra do dvd por exemplo. Fiz uns versos da cordel contando partes da história que não ia filmar para amarrar as cenas e pedi para um cantador da região gravá-los. Assim decidimos colocá-la aqui no site.
Aqui vocês podem ver vários estudos para o cartaz de Romance. Na minha opinião quase todos melhores que o cartaz que foi escolhido. É que no final das contas nos tocamos que todas as fotos utilizadas para os estudos abaixo não tinham definição para serem muito ampliadas. E o cartaz final teve que ser feito às pressas.
Já tínhamos receio que com essa onda de tecnologia, youtube, e do culto fugaz ao nu, a cena de sexo entre as personagens de Letícia Sabatella e Wagner Moura caísse na internet. Trata-se de uma cena bonita em que - como bem explicou nosso diretor, Guel Arraes - “o amor idealizado medieval se opõe ao amor sexualizado de agora e ao mesmo tempo os dois se fundem”.
Não queremos que essa cena- que não tem nada a ver com pornô e sim, com o amor vivido entre as personagens - seja propagada “sob as cobertas”, divulgando o nu no marginal e sim, como uma das mais belas e respeitosas cenas de intimidade gravada no cinema brasileiro. Por isso, a filmagem (mal feita, diga-se de passagem) colocada no youtube poderá ser vista aqui no nosso blog. E em breve, nosso diretor Guel Arraes e nossa atriz Letícia Sabatela irão falar sobre a nudez em Romance.
Ass: A Produção
No que corresponderia a um fim do primeiro ato no roteiro o casal do filme se separa. Se tudo correr bem até aí o espectador terá se apaixonado por ele e desejará que ele volte a se encontrar. Mas esta cena tem uma grande dificuldade de realização justamente porque ela periga quebrar a empatia que o casal pode ter criado até então. O personagem de Wagner, Pedro, é que provoca a separação. As razões que ele alega para Ana, personagem de Letícia, são superficiais. Na verdade ele faz isso por ciúme, mas só ele e o público sabem disso.
Nesta gravação nós estamos lendo e estudando as intenções desta cena. Se quiser vê-la, clique AQUI:
Ferido, sem revelar suas verdadeiras razões, Pedro é esnobe, superficial e grosseiro na discussão. Ela, claro, reage muito mal. O público sabe que ele tem uma razão secreta para fazer isso, que ele está representando esta raiva, no fundo está mesmo é sofrendo, mas como ele precisa representar bem a imagem deste amante violento e desagradável, isto pode quebrar a empatia que o público sente pelo personagem e induzi-lo a não torcer mais para que ela volte para ele.
Eu já havia mapeado todas as intenções da cena, inclusive com todas as marcas para apoiá-las. Mas não conseguia resolver a dificuldade principal. Trata-se de uma cena dentro de uma cena, Pedro finge ser desagradável com Ana, mas no fundo ele está sofrendo. Por mais que o público soubesse que ele está representando o que ele via mesmo era um cara grosseiro com sua namorada.
Um dia Wagner resolveu a dificuldade pra mim. Ele me disse: o personagem tem que dizer tudo isso dando a entender que está tendo muita dificuldade de fazê-lo. O desenho é todo igual: ele briga aqui, é esnobe ali etc mas ele faz tudo isso sem querer. Fazendo assim ele lembra ao público todo tempo o quanto ele está sofrendo em ser desagradável. Desta forma ele se torna apenas desagradável para a personagem dela e não para o, público.
Aqui a cena da maneira como eu havia pensado na leitura e como ela ficou no filme.
Não costumo escrever para quem escreve crítica sobre algum trabalho meu mas neste caso o faço por um motivo bem particular. Seu artigo sobre meu filme “Romance” responde ao que eu acho que seja a função da crítica: analisar mais do que fazer julgamentos de valor.
Entendi sua posição como simpática ao filme mas até agora já li elogios mais rasgados (assim como espinafrações idem) e portanto não é por isso que lhe escrevo mas para elogiar o respeito com que você procurou, antes de julgar, entender nossa proposta.
Pra mim, mais importante que qualquer julgamento, são algumas análises do tipo:
“Toda a parte de criação, de ensaio, da peça dentro do filme exacerba o cotidiano e cria um universo controlado de referências”. Durante todas as entrevistas que dei sobre o filme nesta fase de lançamento não consegui formular melhor o tom do filme do que você o fez com este “cotidiano exacerbado”. Nem consegui expressar de forma tão sucinta um dos dilemas do protagonista, que é o mesmo meu e do grupo com que trabalho na tv, quanto você quando escreve que: “Pedro quer fazer arte num meio essencialmente industrial. Quando ele trapaceia para atingir seu objetivo - e consegue -, está subvertendo ou servindo ao sistema?”
Por fim, eu que tenho fixação pelos finais de história, adorei a minha declaração com que você terminou o artigo, acho até que resgatada de outra conversa nossa, e que denota mais uma vez o cuidado com que você o escreveu:
“Prefiro que falem mal de mim e respeitem meus atores. Eles são maravilhosos.”
Quando dirijo, eu me oriento por um tipo de marcação previamente determinada. Como não sei desenhar vou descrevendo nas rubricas todas as ações. Faço praticamente um roteiro paralelo para a direção. Ao lado de cada fala coloco a descrição da ação que deve acompanhá-la e, geralmente, cada ação sugere um plano diferente. Coloco rubricas nas falas em negrito — e aquilo que está em negrito é o que o personagem está fazendo quando está dizendo aquela fala.
Uma cena que era assim no roteiro:
CENA 20 – TEATRO – BASTIDORES
Na saída de cena os atores confraternizam.
ANA (para Afonso, declamando)
E a paixão há de ser como a noite (pausa)… eterna.
AFONSO
A pausa não precisava ser tão longa.
ANA
Foi perfeita. Foi no tamanho…pausa… perfeito.
AFONSO
Tem razão.
ANA
Foi lindo.
AFONSO
Foi.
ANA
É só isso que você tem para me dizer? “Foi”. Três letras, uma para cada mês de ensaio.
AFONSO (Recitando)
“Que importa o som da minha voz? É o som do meu coração que devíeis ouvir”.
FERNANDA (Entrando)
O Danilo Brezzi está lá fora esperando pra falar.
ANA
É?!
FERNANDA (Pra Afonso)
Vai produzir a próxima novela das sete, capaz de lhe convidar pra dirigir.
AFONSO
Parei com televisão. Não tenho mais nem aparelho.
ANA
Tem sim.
AFONSO
Mas não vejo.
ANA
Vê sim, mais que eu.
Fica assim, depois deste roteiro para a direção:
CENA 20 – TEATRO – CAMARIM
Na saída de cena os atores confraternizam.
/…luzes do espelho do camarim em primeiro plano , “ adivinhamos” Ana e Afonso em segundo plano no reflexo do espelho, beijando-se; som dos aplausos sumindo em fade out/
ANA (para Afonso, declamando)
/saindo do beijo/ E a paixão há de ser como a noite… (pausa)/beija novamente. Sai do beijo e diz o final da fala ainda abraçada, tombando a cabeça pra trás como se desmaiasse de êxtase/… eterna.
AFONSO
A pausa não precisava ser tão longa.
ANA
/” acorda” , fala pertinho dele/ /Foi perfeita. /se afasta numa pirueta, dançando de brincadeira /Foi no tamanho…/congela dando um breque/ pausa… /larga-se numa cadeira, de costas pra ele/ perfeito.
AFONSO
Tem razão.
ANA
/encostada no espaldar da cadeira, jogando a cabeça pra trás, olhando pra ele, estendendo os braços pra chama-lo/Foi lindo.
AFONSO
/se aproxima por trás, curva-se beijando-a /Foi.
ANA
/os dois ficam com os rostos bem juntinhos, invertidos/
É só isso que você tem para me dizer? “Foi”. /senta, vira/Três letras, uma para cada mês de ensaio.
AFONSO (Recitando)
/pega a mão dela, beijando-a e ajoelhando
ANA-se ou curvando-se, teatral/ “Que importa o som da minha voz? É o som do meu coração/põe a mão dela no coração dele/ que devíeis ouvir”./beijam-se/
FERNANDA (Entrando)
/fecha a porta, entra, tudo rápido, meio excitada/O Danilo Brezzi está lá fora/off sobre os dois, Ana saindo do beijo, atenta, Afonso se ergeu/ esperando pra falar.
ANA
/levanta pra se arrumar/É?!
FERNANDA (Pra Afonso)
Ele produz “ Pérolas e Porcos”, /Afonso está passando pro lado dela que se vira pra ele, vai saindo/ a novela das sete.
AFONSO
Não vejo televisão. Não tenho nem aparelho.
/Fernanda saiu fechando a porta/
ANA
/soltando os fechos do vestido /Tem sim.
AFONSO
Mas não vejo.
ANA
Vê sim, mais que eu.
Praticamente, cada uma dessas falas é um plano, mas eu não tenho um enquadramento prévio definido. Eu começo a fazer essas marcações, cena por cena, pelo menos uns dois meses antes da filmagem.
Não trabalho muito com improviso. Mas isso é uma característica bem pessoal: tenho muita angústia com improviso, reconheço que não sou bom improvisador; ao contrário, gosto de elaborar muito as coisas e, com tempo para pensar, eu sempre melhoro um pouco. Por conta disso, eu trabalho o máximo possível com antecedência. Evidentemente que incorporo aqui e ali uma gag, uma idéia ou outra no improviso, mas nada que marque, que interfira realmente na obra. Para que um improviso dessa natureza dê certo, eu acho que o processo tem que ser coletivo, tem que começar do zero a criar junto com a equipe e com o elenco, o que nem sempre é possível pelas condições de produção.
Depois de algumas leituras “de mesa” , logo “levanto” para marcar as ações físicas.
Clique no vídeo para ver o ensaio da cena
Se as marcas são orgânicas elas devem ajudar o ator a resolver aquela cena específica. Já a construção do personagem propriamente dita que é a invenção do seu jeito de ser, sua personalidade etc termina sendo mais um trabalho do ator, ainda que ele discuta comigo se fica melhor de um jeito ou de outro, se faz mais rápido ou mais lento. Aliás, costumam brincar comigo dizendo que eu pareço um diretor de Fórmula 1: quanto mais rápido, melhor!
Um erro de continuidade pedido pelo roteiro quase vira um erro involuntário que nos obrigaria a uma refilmagem complicadíssima.
A história pede que durante as filmagens de Tristão e Isolda, o especial de tv dirigido pelo personagem de Wagner Moura, haja um erro de continuidade numa cena importantíssima , o que obrigaria o produtor (José Wilker) a refilmá-la.
DANILO (Wilker)
Eu vou processar você.
PEDRO (Wagner)
Erro de continuidade não consta do código penal brasileiro.
Mas quase que o feitiço (o erro pedido pelo roteiro) se volta contra o feiticeiro (o diretor) e eu ia ter que refilmar a cena para desespero dos produtores.
O roteiro prevê que durante a filmagem da cena final de Tristão e Isolda o personagem de Letícia Sabatella tenha, num plano o olho borrado de maquiagem por conta do choro pela morte de Tristão e que no plano seguinte a maquiagem esteja limpa. Eu me preocupava que este erro ficasse bem claro pois tinha medo que este artifício, o erro de continuidade fosse uma questão meio técnica e não fosse bem percebido pelo público. Fizemos primeiro o plano com a maquiagem retocada (que seria o segundo na ordem de montagem) e começamos a preparar o primeiro, onde a maquiagem estaria borrada, e que era bem mais enrolado: uma aproximação de câmera (travelling in) em cima de uma pedra lindíssima com uma vista do Sertão ao por do sol o que complica mais ainda a filmagem pois teríamos pouco tempo de luz.
A cena já tinha sido ensaiada e estudada exaustivamente em dias anteriores e eu deixei a equipe preparando o plano pois tive que receber o governador da Paraíba , Cássio Cunha Lima, que visitava o nosso set. Participei das fotos e entrevistas de olho no horário do por do sol e logo que deu voltei correndo. Estava tudo pronto e filmamos o plano, que ficou lindo e todos nós felicíssimos. Dei por encerrada as filmagens do dia e a equipe começou a desmontar o material. Não sei porque, já que tinha dado como encerrada as gravações, resolvi revisar a cena no monitor para ver se estava tudo certo. E gelei: o erro de continuidade que nós buscávamos não ia ficar claro na montagem final. Não ia ficar evidente quando colássemos os dois planos que no primeiro a maquiagem estava borrada e no segundo não. Isto porque borramos o olho de Letícia para ser visto de frente, como acontece no início do plano. Mas o problema é que ela termina a cena de perfil e nesta posição o borrão não aparece direito. E, claro, sendo este o primeiro plano na ordem de montagem é justamente o final dele que deveria estar em flagrante descontinuidade com o plano seguinte. E como de perfil o borrão não aparece direito temos a impressão que o rosto está limpo e o corte para o início do plano seguinte, em que a maquiagem foi propositalmente retocada, se dá em continuidade. Ou seja, era pra ficar errado e ficou certo. Na hora eu não podia ver o corte, mas dava para imaginá-lo, ele ficaria assim.
Enquanto eu pensava o que fazer foi me passando pela cabeça a cena do personagem de Wilker, desesperado, descobrindo que ia ter que voltar ao Sertão para refilmar uma cena porque ela tinha um baita erro de continuidade. Eu teria que fazer o mesmo só que pela razão contrária: a cena estava errada porque não tinha um baita erro de continuidade. E pedi para que remontássemos o equipamento e refizéssemos o plano para desespero, desta vez, do diretor de fotografia, Adriano, que via o sol se pondo e a luz caindo cada vez mais.
Reclamei com Ana , nossa maquiadora, mas é claro que o erro era meu também. Como ela sabia que o tempo era precioso não discutiu, com a sabedoria que muitas vezes têm os profissionais de uma equipe de cinema ou tv para quem o que vale é o resultado final. Borramos mais o rosto e, sobretudo, borramos no perfil. E ficou assim:
Em “Romance” Letícia faz o papel de uma atriz de teatro. Como ela tem uma bela voz pedi que ela cantasse em cena. Além de ficar bonito servia para reforçar o quanto seu personagem, Ana, é uma atriz bem preparada. Claro que neste caso quem é bem preparada é primeiro a Letícia, ninguém representa alguém cantando se não souber cantar. Como decidi de última hora não tive tempo de pesquisar em vez de uma música da Idade Média como pediria “Tristão e Isolda”, a peça que sua personagem está representando, peguei uma canção de amor do século XVIII que euouvi pela primeira vez no filme A Religiosa de Alain Resnais. Mas é conhecidíssima e já teve muitas interpretações modernas, de Joan Baez a Brigitte Bardot. Trata-se justamente de uma “romance”chamada“Plasir d´amour” e que foi composta por um sobrinho de Voltaire.
Você pode escutá-la por Letícia aqui:
Tristão e Isolda é retomado na segunda parte do filme numa versão para o sertão nordestino. Por efeito de simetria eu quis que houvesse também uma canção de cena nesta segunda parte. Coloquei na voz de Isolda (Letícia Sabatella) e Tristão (Vladimir Brichta) um trecho de uma canção nordestina que eu havia escutado numa gravação queLiedo Maranhão, antropólogo pernambucano, havia feitocom um folheteiro (leitor de folhetos de cordel) chamado, acho, Olho de Gato. Chama-se “Flor do Cascalho” e mais tarde descobri que a letra é de Apolônio Cardoso, advogado e violeiro nascido em Campina Grande , por coincidência cidade bem próxima da região em que filmamos esta cena.