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A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE…
Há quase trinta anos que eu sou diretor e até bem pouco tempo nunca tinha filmado uma cena de sexo nem uma cena de batalha. Depois de ter feito “Romance” falta a cena de batalha.
Não estou comparando batalha e sexo embora haja muitas explicações, freudianas e outras, para aproximá-los, mas chamando a atenção para o grau de dificuldade técnica e dramatúrgica desses dois tipos de cena e o cuidado que o diretor precisa ter para realizá-las.
Escrever uma batalha num roteiro é uma responsabilidade enorme em relação ao produtor. Normalmente filmá-la custa uma grana, é preciso que ela seja absolutamente necessária e muito bem realizada pois a chance daquilo virar uma pancadaria onde ninguém entende o que está acontecendo é muito grande.
Escrever uma cena de sexo num roteiro é uma responsabilidade muito grande em relação aos atores. Filmá-la custa-lhes uma grande exposição, é preciso que ela seja absolutamente necessária e muito bem realizada pois a chance daquilo ficar constrangedor é muito grande. Neste sentido eu dou inteira razão ao “manifesto” do Pedro Cardoso.
Por que a cena de sexo é absolutamente necessária em “Romance”? Os seus personagens principais, Pedro e Ana, ele um autor-diretor, ela atriz e parceira de seus trabalhos, se apaixonam durante uma encenação teatral do clássico “Tristão e Isolda”. O amor, como não poderia deixar de ser, é o tema principal de “Romance” . Os dois atores Pedro e Ana, que buscam uma forma mais contemporânea de se relacionar, se apaixonam durante os ensaios da peça “Tristão e Isolda”, protótipo do amor romântico, encarnados por eles mesmos no teatro.

“Tristão e Isolda” é o grande romance medieval. Os trovadores, poetas-cantadores da Idade Média, professavam o amor casto, sem sexo, o amor idealizado por uma dama. Stendhal diria mais tarde “Possuir é nada, desejar é tudo”. Isolda era casada com o rei Marcos e nunca teve relação carnal com Tristão. Naquela época, mesmo no casamento o sexo era visto com reservas.
“Os teólogos da Igreja chegaram a dizer que o marido ardente, que se comporta com sua esposa como amante, trai o próprio princípio do casamento desde dentro, constituindo-se numa estranha forma de adúltero” (Wisnick) . O amor contemporâneo, ao contrário, tenta juntar sexo e casamento, fazer do marido (da mulher) também o (a) amante. Por isso era necessário que o casal formado por Pedro e Ana, que se opõe na forma de amar a “Tristão e Isolda”, tivesse uma cena de sexo. Não bastava que esta cena fosse apenas sugerida ou relatada, era preciso que o espectador a presenciasse de alguma forma, senão estaríamos privilegiando o amor idealizado da Idade Média quando o filme é uma defesa do amor pós-romântico.
Explicado o “porque”, agora falta o “como”. Como filmar a cena de sexo para que ela crie uma emoção especial no filme, fazer com que uma cena íntima tenha um impacto grandioso de uma, digamos, batalha? Jorge Furtado (co-roteirista do filme) e eu encontramos a chave justamente nesta oposição entre os dois casais e escrevemos a cena de sexo entre Pedro e Ana em paralelo com uma cena de amor da peça Tristão e Isolda.
Tristão, representado por Pedro, diz para Isolda, representada por Ana, versos bem ao gosto do amor idealizado “Teu suspiro infla a vela do meu barco/ e eu navego a deriva dos seus beijos/Adeus, filha de Irlanda, meu amor louco/quanto mais longe de ti mais te desejo” .
Em paralelo, os mesmos Ana e Pedro fazem sexo no palco do teatro vazio. O amor idealizado medieval se opõe ao amor sexualizado de agora e ao mesmo tempo os dois se fundem, pois ambas as cenas são representadas pelos mesmos atores, fazendo uma cena só, de sexo e amor juntos. Tudo isso embalado pela abertura de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, outra referência importantíssima de amor romântico, desta vez do século dezenove. É uma cena de poucos minutos, mas passei um dia inteiro decupando-a no papel e mais outro para filmá-la. Nela os atores aparecem em nu parcial mas resolvi filmar alguns planos alternativos para a edição se achássemos que deveríamos eliminar inteiramente os nus.
Terminamos usando os planos alternativos no trailler, que é um material que tem mais exposição e onde o nu poderia ficar fora de contexto, mas deixamos a cena no filme com os nus planejados. A primeira vez a gente nunca esquece e confesso que fiquei bastante satisfeito com o resultado final da seqüência.
Neste ponto devo explicar porque não concordo inteiramente com o que considero um certo exagero de tom do “manifesto” do Pedro Cardoso. Sei que muitas vezes diante de um exagero, no caso a exploração do sexo pela mídia, é preciso ser exagerado na reação a ele. Mas temo que isso angarie a adesão de muito moralista pelas razões erradas. A culpa, diremos, não é dele,Pedro, e sim dos moralistas que entenderam errado. Certo. Mas quando falamos na mídia somos também um pouco responsáveis pelo uso, mesmo indevido, que as pessoas farão do que dissemos.
Pedro escreve que “as empresas que exploram a comunicação em massa (e as que dela fazem uso para divulgar seus produtos) apossaram-se de uma certa liberdade de costumes, obtida por parte da população nos anos 60 e 70, e fazem hoje um uso pervertido dessa liberdade”. E é verdade. Mas temos que tomar cuidado para que, a pretexto deste uso equivocado, não percamos as conquistas que estes anos trouxeram para a liberdade de costume e a liberação sexual.
Sou um produto bem típico desta época. Inclusive foi nos anos setenta que me apaixonei pelo cinema, sobretudo o que se fazia nos anos sessenta-setenta. Foram filmes como “Jules e Jim” de Truffault, “Uma mulher é uma mulher”, de Godard, “Todas as mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira e as canções de amor de Caetano Veloso que mais contribuíram para expressar esta nova forma de amor pós-romântico e que me inspiraram a fazer este filme.
É preciso dizer que tenho quase certeza de que o Pedro aprova esta cena de sexo em “Romance”. Ele, inclusive, foi um dos amigos que mais me estimulou a fazer este filme. Acompanhou e comentou o roteiro fazendo observações e me incentivando. Viu o filme pronto e gostou.

Em tempo. Jorge e eu batizamos o autor-ator protagonista do filme com o nome Pedro em homenagem ao nosso parceiro e grande amigo Pedro Cardoso.
Ass: Guel
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