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Romance de Cordel / Romance Medieval
25/10/2008 10:44 pm


Os Romances de Cordel do Nordeste brasileiro vêm diretamente da tradição dos
romances medievais. Da mesma maneira que os cantadores narram amores e

aventuras em versos cantados os trovadores da Idade Média narraram as
aventuras de Tristão e sua paixão por Isolda.

Num determinado momento do filme Pedro, personagem de Wagner que é ator e
diretor, faz uma adaptação de “Tristão e Isolda” para o Sertão que será
exibida na tv. No filme vemos os ensaios e algumas cenas deste programa.

Resolvi aproveitar a produção, gravar mais umas cenas e montar um
programinha de dez minutos com a história corrida desta adaptação um pouco
por diversão, um pouco para usá-lo de alguma maneira mais tarde como extra
do dvd por exemplo. Fiz uns versos da cordel contando partes da história que
não ia filmar para amarrar as cenas e pedi para um cantador da região
gravá-los. Inicialmente não pensava usar estes versos no filme. De volta das
filmagens, passando por Recife, encontrei Ariano Suassuna e comentei sobre
este “curta-metragem” já que seu primeiro romance é uma transposição do
mito de Tristão e Isolda para o Sertão numa época recente. Ele logo me
perguntou: e por que você não usa o cordel no filme? Pensei “por que não”?

Verdade que desde que Glauber usou este recurso em “Antonio das Mortes”
muita gente lançou mão dele mas este filme dentro do filme não deixa de ser
também uma piscadela de olho para o cinema novo. Daí eu usei alguns versos.

A canção completa pode ser ouvida aqui.

Cantador

Ass: Guel

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Romance e a Mostra de Cinema em São Paulo
23/10/2008 4:02 pm

Romance passou ontem na mostra de São Paulo. Na apresentação que tive que fazer lembrei de várias coisas que há muito tempo tinha vontade e pude realizar neste filme: voltar a trabalhar com antigos parceiros como Andréa  que fazia muito tempo eu não dirigia , conhecer novos como Letícia, Wagner e Vladimir.

 

 Pude me aproximar de filmes que sempre admirei mas que nunca encontrei diretamente no meu trabalho e que tratam, como Romance, do amor nos tempos modernos: Jules e Jim, Todas as Mulheres do Mundo, Uma Mulher é uma Mulher, Eu sei que vou te amar.

Pude fazer uma cena na avenida Paulista.

 

Conheci São Paulo muito antes de conhecer Nova Iorque e a Avenida Paulista ficou sendo para  sempre a minha Quinta Avenida. No roteiro tínhamos a oportunidade de fazer  uma cena do casal Letícia-Wagner caminhando pela cidade ao amanhecer logo depois da comemoração da estréia deles como Tristão e Isolda no teatro. “Deus , é a aurora, como a noite é breve” diz o personagem de Wagner repetindo uma fala da peça enquanto a imagem mostra os prédios contra o céu  do amanhecer  e desce para o casal caminhando na calçada. Porém, na avenida Paulista, o silencio é ainda mais breve.

 

 Não tínhamos previsto que mesmo de madrugada o movimento de carros  é intenso prejudicando o audio.  Pra complicar as antenas de rádio e TV interferiam nos microfones sem fio que não podiam ser utilizados. Começou imediatamente aquela corrida contra o tempo que costuma colocar as produções de cinema em luta contra o mundo, ou seja, contra a Avenida Paulista. Ganhou o mundo e terminamos dublando a cena.

 

Ass: Guel

 

 

 

 

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ROMANCE E O “MANIFESTO” DE PEDRO CARDOSO
21/10/2008 6:44 pm

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE…

Há quase trinta anos que eu sou diretor e  até bem pouco tempo  nunca tinha filmado uma  cena de sexo nem uma cena de batalha. Depois de ter feito “Romance” falta a cena de batalha.

Não estou comparando batalha e  sexo embora haja muitas explicações,  freudianas e outras, para aproximá-los, mas chamando a atenção para o grau de dificuldade técnica e dramatúrgica desses dois tipos de cena e o cuidado que o diretor precisa ter para realizá-las.

Escrever  uma batalha num roteiro é uma responsabilidade enorme em relação ao produtor. Normalmente filmá-la custa uma grana, é preciso que  ela seja absolutamente necessária e muito bem realizada pois a chance daquilo virar uma pancadaria onde ninguém entende o que está acontecendo é muito grande.

Escrever  uma cena de sexo  num roteiro é uma responsabilidade muito grande em relação aos atores. Filmá-la custa-lhes uma grande exposição,  é preciso que  ela seja absolutamente necessária e muito bem realizada pois a chance daquilo ficar constrangedor é muito grande. Neste sentido eu dou inteira razão ao “manifesto” do Pedro Cardoso.

Por que a cena de sexo  é absolutamente necessária em “Romance”? Os seus personagens principais, Pedro e Ana, ele um autor-diretor, ela atriz e parceira de seus trabalhos, se apaixonam durante uma encenação teatral do  clássico “Tristão e Isolda”. O amor, como não poderia deixar de ser, é o  tema principal de “Romance” . Os dois atores Pedro e Ana, que buscam uma forma mais contemporânea de se relacionar, se apaixonam durante os ensaios da peça  “Tristão e Isolda”, protótipo do amor romântico, encarnados  por eles mesmos no teatro.

Wagner Moura e Letícia Sabatela em cena do filme Romance

“Tristão e Isolda” é o grande romance medieval. Os trovadores, poetas-cantadores da Idade Média, professavam o amor casto, sem sexo, o amor idealizado por uma dama. Stendhal diria mais tarde “Possuir é nada, desejar é tudo”. Isolda era casada com o rei Marcos e nunca teve relação carnal com Tristão. Naquela época, mesmo no casamento o sexo era visto com reservas.

“Os teólogos da Igreja chegaram a dizer que o marido ardente, que se comporta com sua esposa como amante, trai o próprio princípio do casamento desde dentro, constituindo-se numa estranha forma de adúltero” (Wisnick) . O amor contemporâneo, ao contrário, tenta juntar sexo e casamento, fazer do marido (da mulher) também o (a) amante. Por isso era necessário que o casal formado por Pedro e Ana, que se opõe na forma de amar a “Tristão e Isolda”, tivesse uma cena de sexo. Não bastava que esta cena fosse apenas sugerida ou relatada, era preciso que  o espectador a presenciasse de alguma forma, senão  estaríamos privilegiando o amor idealizado da Idade Média quando o filme é uma defesa do amor pós-romântico.

Explicado o “porque”, agora falta o “como”. Como filmar a cena de sexo para que ela crie uma emoção especial no filme, fazer com que uma cena íntima tenha um impacto grandioso de uma, digamos, batalha? Jorge Furtado (co-roteirista do filme) e eu encontramos a chave justamente nesta oposição entre os dois casais e escrevemos a cena de sexo entre Pedro e Ana em paralelo com uma cena de amor da peça Tristão e Isolda.

Tristão, representado por Pedro,  diz para Isolda, representada por Ana,  versos  bem ao gosto do amor idealizado “Teu suspiro infla a vela do meu barco/ e eu navego a deriva dos seus beijos/Adeus, filha de Irlanda, meu amor louco/quanto mais longe de ti mais te desejo” .

Em paralelo, os mesmos Ana e Pedro fazem sexo no palco do teatro vazio. O amor idealizado medieval se opõe ao amor sexualizado de agora e ao mesmo tempo os dois se fundem, pois ambas as cenas  são representadas pelos mesmos atores, fazendo uma cena só,  de sexo e amor juntos. Tudo isso embalado pela abertura de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, outra referência importantíssima de amor romântico, desta vez do século dezenove. É uma cena de poucos minutos, mas passei um dia inteiro decupando-a no papel e mais outro para filmá-la. Nela os atores aparecem em nu parcial mas resolvi filmar alguns planos alternativos para a edição se achássemos que deveríamos eliminar inteiramente os nus.

Terminamos usando os planos alternativos no trailler, que é um material que tem mais exposição e onde  o nu poderia ficar fora de contexto, mas deixamos a cena no filme com os nus planejados. A primeira vez a gente nunca esquece e confesso que fiquei bastante satisfeito com o resultado final da seqüência.

Neste ponto devo explicar porque não concordo inteiramente com o que considero um certo exagero de tom do “manifesto” do Pedro Cardoso.  Sei que muitas vezes diante de um exagero, no caso a exploração do sexo pela mídia, é preciso ser exagerado na reação a ele. Mas temo que isso angarie a adesão de muito moralista pelas razões erradas. A culpa, diremos,  não é dele,Pedro, e sim dos moralistas que entenderam errado. Certo. Mas quando falamos na mídia somos também um pouco responsáveis pelo uso, mesmo indevido, que as pessoas farão do que dissemos.

Pedro escreve que “as empresas que exploram a comunicação em massa (e as que dela fazem uso para divulgar seus produtos) apossaram-se de uma certa liberdade de costumes, obtida por parte da população nos anos 60 e 70, e fazem hoje um uso pervertido dessa liberdade”. E é verdade. Mas temos que tomar cuidado para que, a pretexto deste uso equivocado, não percamos as conquistas que estes anos  trouxeram para a liberdade de costume e a liberação sexual.

Sou um produto bem típico desta época. Inclusive foi nos anos setenta que me apaixonei pelo cinema, sobretudo o que se fazia nos anos sessenta-setenta. Foram filmes como “Jules e Jim” de Truffault, “Uma mulher é uma mulher”, de Godard, “Todas as mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira e as canções de amor de Caetano Veloso que mais contribuíram para expressar esta nova forma de amor pós-romântico e que me inspiraram a fazer este filme.

É preciso dizer que tenho quase certeza de que o Pedro aprova esta cena de sexo em “Romance”. Ele, inclusive, foi um dos amigos que mais me estimulou a fazer este filme.  Acompanhou e comentou o roteiro fazendo observações e me incentivando. Viu o filme pronto e gostou.

Primeira cena de sexo dirigida por Guel Arraes

Em tempo.  Jorge e eu batizamos o autor-ator  protagonista do filme com o nome  Pedro em homenagem ao nosso parceiro e grande amigo Pedro Cardoso.

Ass: Guel

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Tristão e Isolda no Sertão
15/10/2008 5:32 pm

“O isolamento, a estabilidade e a longa duração do sistema sócio-político-econômico vigente no Nordeste mantiveram muitos aspectos pertinentes à cultura européia da época dos descobrimentos. Tais traços constituem signos relevantes da medievalidade ainda presente na região, implantada desde o início da colonização, e geram um contraste: a Europa se transformava, ao passo que a América vinha congelar o sistema herdado - visto que era o já  conhecido e porque a distância em relação aos centros geradores impedia de acompanhar o passo das transformações.  E esse contexto, portanto, se manteve em certos bolsões, como o Nordeste”.  Do livro Sertão Medieval  de  Ligia Vassallo

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Minha idéia era exatamente adaptar a história pro Nordeste de antigamente.  A Idade Média européia e o Nordeste mais arcaico têm diversas  coisas em comum. Vários estudiosos já  fizeram esta comparação. O sistema agrário sertanejo, considerado semi-feudal até bem pouco tempo, era herdeiro do medieval. O maniqueísmo religioso, idem. Muitos traços da cultura européia se mantiveram no Nordeste: os romances de cordel, por exemplo,  citam muitos contos europeus daquela época. Na nossa versão nordestina para o “Romance de Tristão e Isolda” os trovadores provençais se tornaram os cantadores nordestinos, os cavaleiros medievais, como Tristão,  foram vaqueiros, e os reis e rainhas como Marcos e Isolda eram os proprietários rurais, os donos de fazenda de gado.

Ass: Guel

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“Trailer do Filme Romance”
9/10/2008 11:45 am

Novo filme de Guel Arraes tem seu trailer divulgado, “Romance o filme” tem como protagonistas Wagner Moura  e Letícia Sabatella.

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“Como começou a preparação do Wagner pra viver o Pedro”
7/10/2008 6:13 pm

 

Abaixo uma carta que escrevi para o querido Wagner Moura, nela cito filmes que o ajudaram a entender e buscar informações para construção do personagem “Tristão”.

“ Wagner, querido:

Neste dvd tem trechos de alguns filmes que podem servir de referência para o Romance. Infelizmente não consegui copiar com legendas mas trata-se de filmes fáceis de achar pra alugar (alguns devo ter aqui) caso você queira ver algum deles com legenda ou ver o filme todo.

1) Início de Tootsie: Dustin Hoffman faz um ator-professor de teatro. A montagem inicial tem um pouco do ritmo do início do roteiro de Romance.


Tootsie- Sydney Pollack and Dustin Hoffman

2)” Jules e Jim” “ Viver a Vida” “ Uma Mulher é uma Mulher” “ Todas As Mulheres do Mundo” são por assim dizer alguns precursores na busca de exprimir o amor contemporâneo no cinema.

“ Jules e Jim” vale a pena ver todo. Neste Filme a aceitação, ao menos por um tempo,  do triângulo amoroso é muito bem contada . É esta mesma aceitação como prova de amor  que Pedro  dá pra Ana na segunda parte, aceitando por um tempo o namoro dela com José. Este re-discussão do ciúme é uma das novidades do amor contemporâneo e seria impossível no amor paixão de Tristão e Isolda.

Jules et Jim (1962) - War memories

Em “ Viver a Vida” temos Ana Karina , musa da época na França como Leila Diniz no Brasil, que teve  na vida privada um romance com Godard, no clima de Afonso e Ana. Na segunda  cena copiada  ela conversa com um professor de filosofia e ele faz uma bela explanação sobre o amor.

Uma Mulher é Uma Mulher tem Ana Karina de novo. Este filme de Godard é uma espécie de versão em comédia musical do Jules e Jim (neste sentido o tom é mais afastado do tom do Romance). Nesta cena que copiei Ana Karina chegou em casa e acabou de ser infiel ao marido, por isso ela não consegue encarar a câmera-marido (Godard?).

Todas As Mulheres do Mundo tem Leila , Paulo José (num personagem leve e leviano quase o contrário de Pedro )  mas o clima geral é muito bom e a discussão do amor muito próxima a nossa. Como te falei Domingos é até hoje uma inspiração para este filme, tanto na vida como na obra. É incrível que ele tenha feito um filme tão derramadamente de amor numa época de cinema engajado. Aliás penso que de certa maneira este nosso Romance tb vai contra a corrente dos filmes brasileiros atuais que se ocupam de temas bem diferentes , muitos deles ligados a periferia (Cidade dos Homens, Opaió, Carandiru etc)  e continuo pedindo licença a São Domingos de Oliveira para faze-lo.



Nestes filmes dos anos Sessenta os diretores e atores usaram muita vivência em comum, bastante improvisação etc. Acredito que nosso método será o contrário do deles (mais rigor, mais ensaio, mais marcação, mais estética, mais atuação- etc) mas creio que um objetivo nosso seria reencontrar este frescor nas interpretações

Como disse, esses filmes são alguns precursores, a lista de filmes que discutem o amor contemporâneo é interminável, claro. Eu sei Que Vou Te Amar (anos 80) , o mais recente Closer (vou rever esses dias) etc

3) O último trecho de filme é tirado de “ Herói” , onde vemos a morte de dois amantes que poderiam ser Tristão e Isolda no Sertão.”

Um abração
Guel ”

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“Wagner Moura interpretando Tristão em Romance”

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