Quando dirijo, eu me oriento por um tipo de marcação previamente determinada. Como não sei desenhar vou descrevendo nas rubricas todas as ações. Faço praticamente um roteiro paralelo para a direção. Ao lado de cada fala coloco a descrição da ação que deve acompanhá-la e, geralmente, cada ação sugere um plano diferente. Coloco rubricas nas falas em negrito — e aquilo que está em negrito é o que o personagem está fazendo quando está dizendo aquela fala.
Uma cena que era assim no roteiro:
CENA 20 – TEATRO – BASTIDORES
Na saída de cena os atores confraternizam.
ANA (para Afonso, declamando)
E a paixão há de ser como a noite (pausa)… eterna.
AFONSO
A pausa não precisava ser tão longa.
ANA
Foi perfeita. Foi no tamanho…pausa… perfeito.
AFONSO
Tem razão.
ANA
Foi lindo.
AFONSO
Foi.
ANA
É só isso que você tem para me dizer? “Foi”. Três letras, uma para cada mês de ensaio.
AFONSO (Recitando)
“Que importa o som da minha voz? É o som do meu coração que devíeis ouvir”.
FERNANDA (Entrando)
O Danilo Brezzi está lá fora esperando pra falar.
ANA
É?!
FERNANDA (Pra Afonso)
Vai produzir a próxima novela das sete, capaz de lhe convidar pra dirigir.
AFONSO
Parei com televisão. Não tenho mais nem aparelho.
ANA
Tem sim.
AFONSO
Mas não vejo.
ANA
Vê sim, mais que eu.
Fica assim, depois deste roteiro para a direção:
CENA 20 – TEATRO – CAMARIM
Na saída de cena os atores confraternizam.
/…luzes do espelho do camarim em primeiro plano , “ adivinhamos” Ana e Afonso em segundo plano no reflexo do espelho, beijando-se; som dos aplausos sumindo em fade out/
ANA (para Afonso, declamando)
/saindo do beijo/ E a paixão há de ser como a noite… (pausa)/beija novamente. Sai do beijo e diz o final da fala ainda abraçada, tombando a cabeça pra trás como se desmaiasse de êxtase/… eterna.
AFONSO
A pausa não precisava ser tão longa.
ANA
/” acorda” , fala pertinho dele/ /Foi perfeita. /se afasta numa pirueta, dançando de brincadeira /Foi no tamanho…/congela dando um breque/ pausa… /larga-se numa cadeira, de costas pra ele/ perfeito.
AFONSO
Tem razão.
ANA
/encostada no espaldar da cadeira, jogando a cabeça pra trás, olhando pra ele, estendendo os braços pra chama-lo/Foi lindo.
AFONSO
/se aproxima por trás, curva-se beijando-a /Foi.
ANA
/os dois ficam com os rostos bem juntinhos, invertidos/
É só isso que você tem para me dizer? “Foi”. /senta, vira/Três letras, uma para cada mês de ensaio.
AFONSO (Recitando)
/pega a mão dela, beijando-a e ajoelhando
ANA-se ou curvando-se, teatral/ “Que importa o som da minha voz? É o som do meu coração/põe a mão dela no coração dele/ que devíeis ouvir”./beijam-se/
FERNANDA (Entrando)
/fecha a porta, entra, tudo rápido, meio excitada/O Danilo Brezzi está lá fora/off sobre os dois, Ana saindo do beijo, atenta, Afonso se ergeu/ esperando pra falar.
ANA
/levanta pra se arrumar/É?!
FERNANDA (Pra Afonso)
Ele produz “ Pérolas e Porcos”, /Afonso está passando pro lado dela que se vira pra ele, vai saindo/ a novela das sete.
AFONSO
Não vejo televisão. Não tenho nem aparelho.
/Fernanda saiu fechando a porta/
ANA
/soltando os fechos do vestido /Tem sim.
AFONSO
Mas não vejo.
ANA
Vê sim, mais que eu.
Praticamente, cada uma dessas falas é um plano, mas eu não tenho um enquadramento prévio definido. Eu começo a fazer essas marcações, cena por cena, pelo menos uns dois meses antes da filmagem.
Não trabalho muito com improviso. Mas isso é uma característica bem pessoal: tenho muita angústia com improviso, reconheço que não sou bom improvisador; ao contrário, gosto de elaborar muito as coisas e, com tempo para pensar, eu sempre melhoro um pouco. Por conta disso, eu trabalho o máximo possível com antecedência. Evidentemente que incorporo aqui e ali uma gag, uma idéia ou outra no improviso, mas nada que marque, que interfira realmente na obra. Para que um improviso dessa natureza dê certo, eu acho que o processo tem que ser coletivo, tem que começar do zero a criar junto com a equipe e com o elenco, o que nem sempre é possível pelas condições de produção.
Depois de algumas leituras “de mesa” , logo “levanto” para marcar as ações físicas.
Clique no vídeo para ver o ensaio da cena
Se as marcas são orgânicas elas devem ajudar o ator a resolver aquela cena específica. Já a construção do personagem propriamente dita que é a invenção do seu jeito de ser, sua personalidade etc termina sendo mais um trabalho do ator, ainda que ele discuta comigo se fica melhor de um jeito ou de outro, se faz mais rápido ou mais lento. Aliás, costumam brincar comigo dizendo que eu pareço um diretor de Fórmula 1: quanto mais rápido, melhor!